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| Israel está construindo uma barreira de concreto e arame
farpado na Cisjordânia |
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Por Ramzy
Baroud, 04/06/2007
Fiquei na parte meridional da África, o Cabo da Boa
Esperança. As grandiosas montanhas debaixo e atrás inspiram
um momento de reflexão espiritual inigualável em sua
profundidade e significância. Perante a mim está vista
inspiradora: aqui as águas frias do Atlântico suavemente
encontram as águas quentes do Oceano Índico. Encontram-se,
mas não se chocam. A harmonia é consistente; a magnitude
desta vista é humilhante.
Fui convidado a África do Sul para entregar um discurso
tônico na conferência 'Al-Nakba', realizada na Cidade do
Cabo. A viagem levou-me a outras cidades. Após muitos
discursos, apresentações, entrevistas nos meios de
comunicação, sentei-me com um computador emprestado e
pensamentos dispersos: Como um pode refletir sem o mínimo de
senso de certeza, garantia? Devia tentar.
"Onde estão os Negros Africanos? Foi a primeira pergunta a
vir em minha mente quando o carro de um amigo escoltou-me
desde o percurso do Aeroporto Internacional da Cidade do
Cabo. Vi poucas indicações afirmando que estava de fato na
África, enquanto contemplava a exagerada beleza nos
arredores do aeroporto. Meu amigo no entanto não precisava
responder, à medida que o carro logo subiu apressadamente
por um “acampamento de ocupantes ilegais”; nenhuma favela
pode ser comparada com isto, nem um campo de refugiados.
Inúmeras pessoas são entulhadas em minúsculas e cruéis
aspectos de ‘casas’ feitas de qualquer coisa que aquelas
pobres pessoas podem encontrar e colocar ao redor. Não eram
‘acomodações temporárias’, mas moradias permanentes: aqui
eles vivem, casam, criam as crianças e morrem.
Nenhuma mente brilhante é levada a compreender que o
Apartheid da África do Sul ainda continua, de algum modo,
Apartheid África do Sul. Muito tem sido feito na estrada
para igualar os direitos desde o Congresso Nacional da
África (ANC) juntamente com lutadores pela liberdade e
ativistas da sociedade civil unem forças para derrotar um
legado de 350 anos de opressão, colonialismo e – em 1948 –
oficialmente sancionado o sistema de Apartheid, um sistema
instigado pelo governo de minoria branca para purificar
etnicamente, confinar e subjugar a esmagadora maioria negra.
Realmente, as centenas de Bantustans ou ‘pátrias’ em que os
negros foram trancados, somente seria permitido deixar ou
entrar em áreas Brancas – como serventes – com um passe
especial, já não são um aparelho oficialmente reconhecido.
Os ‘presidentes’ desses Bantustans – marionetes
cuidadosamente escolhidos pelas autoridades Brancas – já são
desacreditados. Agora, Sul Africanos, de todas as cores,
etnias e religiões selecionam seus próprios líderes, em
eleições democráticas que são, mais ou menos, reflexo do
desejo global da população. Mas tomará muito mais que 13
anos, e promessas incontáveis para reconciliar a calculada
disparidade dos séculos.
Apesar de um calendário agitado de duas semanas, fiz uma
meta de visitar tantos acampamentos de ocupantes ilegais
quanto poderia. Segui o caminho da limpeza étnica que
aconteceu no Sexto Distrito da Cidade do Cabo; era uma
Trilha de Lágrimas do tipo, uma Catástrofe Palestina. Meus
avós, pai e mãe foram arrastados de seus lares sob
circunstâncias semelhantes em 1948 na Paletine. Eles também
não eram adequados para viver dentro do mesmo ‘raio
geográfico’ com aqueles que tinham se considerado superior.
Aqueles que foram removidos à força do Sexto Distrito
finalmente ganharam sua parte de terra. Palestinos ainda são
refugiados. Meus avós mortos há muito tempo, minha mãe
também. Meu pai, um homem muito doente e velho, está
esperando em nossa velha casa no campo de refugiados em
Gaza. Ele recusa-se a ceder, render-se.
Falei em uma Faculdade técnica que foi erguida somente para
brancos, no mesmo ponto onde milhares de pessoas de cor e
negros foram desarraigados e jogados em algum outro lugar,
em algum lugar mais discreto, mais aceitável ao gosto dos
administradores do Apartheid. Prestei homenagem a essas
pessoas capazes de rápida recuperação que se recusaram a
aceitar seu status inferior, lutaram e morreram para
recuperar sue liberdade e dignidade. Eu saúdo meu povo, que
estiveram em solidariedade com os lutadores da África do Sul.
Em nossos acampamentos de Gaza, lamentamos pela África do
Sul e celebramos quando Nelson Mandela foi posto livre. Meu
pai distribui doces as crianças da vizinhança. Quando o
Bispo Desmond Tutu visitou a Palestina, colonizadores
israelenses saudaram-no com pichações e cânticos racistas
através da Cisjordânia. Para os palestinos, isto era um
insulto pessoal. Tutu é nosso, assim como Che Guevara,
Martin Luther, Malcolm X, Mahatma Gandhi, Ahmad Yassin e
Yasser Arafat foram e ainda são.
Na ilha de Robin, onde Mandela e centenas dos seus
companheiros foram mantidos durante muitos anos, toquei as
paredes decaídas da prisão. O alimento na prisão era
racionado baseado na cor de pele. Negros sempre recebiam
menos. Mas os prisioneiros desafiaram o sistema prisional
não obstante; eles criaram a coletividade na qual todo o
alimento recebido deveria ser dividido igualmente entre eles.
Rasguei um pedaço do meu xale Palestino e deixei na cela de
Mandela; suas paredes lascadas, embora fortificadas, seu
fino colchonete ainda fica testemunha para a injustiça
perpetrada por alguns e para a fé eterna em um dos
princípios adotados pelos outros. Visitei cada cela na Seção
A e B, toquei cada parede, li cada nome de cada interno:
Cristãos, Hindus, Mulçumanos e Bantus todos eram mantidos
aqui, lutaram, morreram e finalmente ganharam sua liberdade
juntos. Eles se referem como companheiros. A injustiça é
cortina de cor. Então o companheirismo é verdadeiro.
Eu nunca senti o senso de solidariedade e aceitação que
senti na África do Sul. Há uma lição sem igual a ser
aprendida neste lugar surpreendente. Existe muito a ser
resolvido: a verdadeira igualdade a ser compreendida, mas
muito tem sido feito. Um lutador veterano do ANC agradeceu-me
pelas armas e dinheiro fornecidos a sua unidade e muitas
outras, pelo Organização pela Libertação Palestina (OLP) na
década de 1970 e 1980; disse que ele ainda tem seu uniforme
do OLP, guardado em algum lugar em sua pequena velha ‘casa’
em um dos acampamentos dos ocupantes ilegais pontilhando a
cidade. Era um lembrete comovente que a luta ainda não
acabou.
Entre os vários nomes rabiscados no muro cercado no leme do
Cabo da Boa Esperança, alguém teve tempo para escrever “Palestina”.
No muro do Apartheid erguido por Israel em terra Palestina
na Cisjordânia, o paralelo sul-africano é expressado em mais
maneiras do que uma. O relacionamento pode não ser mais
óbvio. A luta por justiça é única, e sempre será.
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